Portugal e as Apostas Online: Um Mercado em Maturação
Quando comecei a apostar em Portugal, o mercado regulado tinha menos de uma dúzia de operadores e a oferta de desportos era limitada. Hoje, o panorama é radicalmente diferente – e os números explicam porquê. A receita do jogo online regulado em Portugal atingiu 337,6 milhões de euros no quarto trimestre de 2025 – um recorde que representa um crescimento de 4,5% face ao mesmo período do ano anterior e de 13,6% face ao terceiro trimestre.
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, contextualizou esta tendência: os dados do terceiro trimestre de 2025 “vêm confirmar a expectativa do setor – uma tendência de desaceleração de crescimento no mercado que se justifica pelo amadurecimento do mesmo”. O mercado já não cresce a 20% ou 30% ao ano como nos primeiros anos de regulação. Cresce a 9%, estabilizou nesse patamar. É um sinal de maturidade, não de estagnação.
Receita e Volume: Os Dados do SRIJ até Q4 2025
O volume total de apostas online em Portugal ultrapassou os 23 mil milhões de euros em 2025. Este número inclui todo o valor transaccionado – apostas colocadas, ganhas e reinvestidas – e não deve ser confundido com a receita líquida. A receita bruta (GGR – Gross Gaming Revenue) é a diferença entre o que os operadores recebem e o que pagam em prémios, e situa-se numa fracção desse volume.
O Estado arrecadou 353 milhões de euros em impostos sobre jogo online em 2025, um aumento de 5,47% face a 2024. Esta receita fiscal é gerada exclusivamente pelos operadores licenciados – mais uma razão pela qual o combate ao jogo ilegal é uma prioridade para o regulador e para a indústria. Cada euro apostado numa plataforma não licenciada é um euro que não contribui para o sistema fiscal nem para os mecanismos de protecção do jogador.
A evolução trimestral revela um padrão sazonal. O primeiro trimestre tende a ser o mais fraco – pós-Natal, menos eventos desportivos de grande impacto. O terceiro e quarto trimestres são os mais fortes, impulsionados pelo início das ligas europeias de futebol, pela NBA, e pela temporada NHL que arranca em outubro. Para quem aposta na NHL, o período de outubro a abril é o pico de oferta de mercados e de liquidez nos operadores portugueses.
Perfil do Apostador Português: Idade, Modalidade e Comportamento
Os dados do SRIJ traçam um retrato claro do apostador português. 77% das contas registadas pertencem a jogadores com menos de 45 anos. A faixa etária dos 25 aos 34 anos representa um terço do mercado – é o segmento mais activo e, possivelmente, o mais sofisticado em termos de literacia digital e acesso a informação.
A distribuição por modalidade de jogo mostra que as apostas desportivas representam 33,6% da receita, enquanto o casino online domina com 66,4%. Esta proporção pode surpreender – muitos assumem que as apostas desportivas são o mercado principal, mas a realidade é que o casino online gera o dobro da receita. Para os operadores, isto significa que as apostas desportivas são um produto de aquisição de clientes (atrai utilizadores que depois exploram o casino), não necessariamente o produto mais rentável.
Dentro das apostas desportivas, o futebol domina com 75,6% do volume, seguido pelo ténis com 10,6% e o basquetebol com 9,6%. O hóquei no gelo não aparece individualizado nas estatísticas do SRIJ – está agregado na categoria “outros”, que representa menos de 5% do volume. É, objectivamente, um desporto de nicho no contexto português.
O comportamento dos apostadores portugueses revela outra tendência relevante: uma porção significativa do mercado opera fora da regulação. Cerca de 40% dos jogadores utilizam plataformas não licenciadas, e na faixa dos 18 aos 34 anos esse número sobe para 43%. Isto significa que os dados oficiais do SRIJ captam apenas parte da realidade – o mercado total, incluindo o segmento ilegal, é substancialmente maior do que os números regulados sugerem. Para o apostador que opera dentro da legalidade, esta realidade é dupla: por um lado, confirma que existe procura significativa; por outro, reforça a importância de operar apenas em plataformas licenciadas, onde existem protecções reais.
O Hóquei no Gelo no Contexto Português: Uma Oportunidade de Nicho
O hóquei no gelo representa cerca de 3% da receita global de apostas desportivas – um número que reflecte a sua posição como desporto secundário face ao futebol, basquetebol e ténis. Em Portugal, a fatia é ainda menor, dada a ausência de tradição no desporto e o facto de os jogos decorrerem em horários nocturnos para o fuso europeu.
No entanto, o mercado global de apostas desportivas está avaliado em 112,26 mil milhões de dólares em 2025, com projecções de crescimento até 325 mil milhões em 2035. Mesmo que a fatia do hóquei se mantenha nos 3%, o crescimento absoluto do mercado significa mais dinheiro a circular nas apostas NHL – e, consequentemente, mais interesse dos operadores em oferecer mercados para este desporto. O que hoje é um nicho em Portugal pode, em 5 a 10 anos, ser um segmento com presença real.
Mas há uma vantagem escondida nesse nicho. Mercados de baixo volume são mercados menos eficientes. Quando milhões de apostadores analisam cada jogo da Premier League, as odds são apertadas e o valor é escasso. Quando poucas centenas de apostadores portugueses acompanham um jogo NHL numa terça-feira à noite, as ineficiências de mercado são maiores – e quem faz a análise correcta encontra valor com mais frequência.
Domingues referiu que “se nada for feito para tornar o produto mais competitivo face à oferta internacional”, o crescimento do mercado regulado pode estagnar. Para a NHL especificamente, “tornar o produto competitivo” significaria mais mercados, melhores odds e funcionalidades in-play mais robustas nos operadores portugueses. Até que isso aconteça, o apostador que se dedica a este nicho opera num território com menos concorrência – e isso, no mundo das apostas, é uma forma de vantagem. Compreender o contexto do mercado português é o complemento natural de dominar as apostas NHL propriamente ditas.